Nos dias santos e nas festas religiosas, a gente comia carne.
Na semana anterior, o Seu Mané Joca, ou outro morador com experiência, saia na comunidade, de caderno e lápis, a arrolar o boi. Era o processo de venda antecipada de carne ao varejo do animal já comprado, ou criado por ele mesmo e com a estimativa do peso em arrobas do animal abatido e limpo, com o nome do comprador e quantidade de quilos desejada.
O animal era abatido na véspera do dia santo e o comprador ia buscar a sua encomenda no local de abate, que normalmente era num engenho de farinha.
O animal era preso em um tronco e o especialista, munido de uma faca apropriada, feria uma única vez determinada veia e o animal, após perder sangue, caia sem vida.
O Seu Pinheiro era especialista em encontrar a veia certa.
O sangue era aproveitado, às vezes, sob a forma de sarapatel.
O chão do abate era forrado com uma camada de folhas verdes de bananeira ou de cardamomo, sobre as quais o boi era descarnado, tirando-se inicialmente o matambre, que já era encaminhado à cozinha para ensopar e alimentar as pessoas envolvidas no abate.
A carne era vendida com osso, misturada, trazeiro e dianteiro.
O comprador recebia seu peso, enfiava numa embira e o levava. Na semana seguinte, o responsável pelo abate retornava aos compradores para receber o pagamento.
Todas as partes do animal eram aproveitadas e vendidas; cabeça, língua, rins, rabada, fato, mocotó, fissura.
A fissura, ou fursura, ou frissura, era composta pelo coração, fígado e bofe e era vendida inteira, ou em metades, ou em quartos ou até em oitavos.
Por fim, o couro era lavado e espequiado (esticado) em varas de bambú e exposto ao sol para transformar-se em componentes artesanais de arreios.
A carne era consumida em refeições festivas, normalmente ensopadas, com arroz e pirão de feijão, onde também se bebia gasosa e os adultos uma garrafa de vinho de barril.