2007: O Ano das Baleias

Pra quem curte a vida marinha, não haverá outro inverno na Praia dos Ingleses como o de 2007. Naqueles meses frios de agosto e setembro foram vários os avistamentos das baleias francas. E não fora poucos os encontros entre as rainhas do mar e os pescadores. Nesta sequência de fotos, o namoro de uma delas com o “Pai e Amigo”, tripulado pelo meu tio Eurico e seus camaradas.

As fotos são de uma manhã nublada de agosto de 2007, na altura do Bar do Marcelo, com uma Rebel XT e lente Canon EFS 75-300.

Da areia, pescadores observam algo diferente no mar.

 

Voltando à praia, os camaradas do ˜Pai e Amigo" avistam uma baleia franca entre eles e a terra firme

 

Como disse meu primo Alan em situação idêntica com meu pai: ˜E agora, tio?"

 

"Rema, meu filho, rema..."

"Rema, meu filho, rema..."

 

Nada como estar na hora certa, no lugar certo. Quando ela ergueu a cauda, alguns dos que a contemplavam da areia olharam de imediato para mim: "Você pegou? Pegou essa?". Peguei!

Peixe que é bom nada, mas hoje o dia tá ganho.

 

 

Boi Arrolado, Boi Morto

Nos dias santos e nas festas religiosas, a gente comia carne.

Na semana anterior, o Seu Mané Joca, ou outro morador com experiência, saia na comunidade, de caderno e lápis, a arrolar o boi. Era o processo de venda antecipada de carne ao varejo do animal já comprado, ou criado por ele mesmo e com a estimativa do peso em arrobas do animal abatido e limpo, com o nome do comprador e quantidade de quilos desejada.

O animal era abatido na véspera do dia santo e o comprador ia buscar a sua encomenda no local de abate, que normalmente era num engenho de farinha.

O animal era preso em um tronco e o especialista, munido de uma faca apropriada, feria uma única vez determinada veia e o animal, após perder sangue, caia sem vida.

O Seu Pinheiro era especialista em encontrar a veia certa.

O sangue era aproveitado, às vezes, sob a forma de sarapatel.

O chão do abate era forrado com uma camada de folhas verdes de bananeira ou de cardamomo, sobre as quais o boi era descarnado, tirando-se inicialmente o matambre, que já era encaminhado à cozinha para ensopar e alimentar as pessoas envolvidas no abate.

A carne era vendida com osso, misturada, trazeiro e dianteiro.

O comprador recebia seu peso, enfiava numa embira e o levava. Na semana seguinte, o responsável pelo abate retornava aos compradores para receber o pagamento.

Todas as partes do animal eram aproveitadas e vendidas; cabeça, língua, rins, rabada, fato, mocotó, fissura.

A fissura, ou fursura, ou frissura, era composta pelo coração, fígado e bofe e era vendida inteira, ou em metades, ou em quartos ou até em oitavos.

Por fim, o couro era lavado e espequiado (esticado) em varas de bambú e exposto ao sol para transformar-se em componentes artesanais de arreios.

A carne era consumida em refeições festivas, normalmente ensopadas, com arroz e pirão de feijão, onde também se bebia gasosa e os adultos uma garrafa de vinho de barril.

De olho na nuca

A alimentação da comunidade de pescadores/lavradores fundamentava-se no peixe e farinha de mandioca.

Os homens viviam da pesca. As famílias que possuíam terras as cultivavam, plantando feijão, milho, melancia e principalmente mandioca. Havia na comunidade vários engenhos de farinha, tocados a boi. Na época da colheita, os lavradores abandonavam a pesca e dedicavam-se, com suas famílias e amigos ao trato da mandioca, desde o arrancar das raízes e transportá-las para os engenhos, onde eram raspadas e cevadas (moídas) e a massa resultante prensada e torrada, resultando na farinha, guardada em paióis de madeira, como provisão para o ano, até a próxima colheita.

O excedente era vendido para as famílias de pescadores que não possuíam terras. A unidade de medida era o saco, aproximadamente quarenta e cinco quilos, que se dividia em dois alqueires, que podiam se subdividir em meio-alqueire, quarta, meia-quarta e salamim.

Normalmente quem comprava ia a pé ao fornecedor, levando o saco vazio, e o trazia cheio nos ombros, através dos caminhos arenosos, poeirentos e escaldantes.

O excedente da pesca, normalmente de arrasto, era vendido. Se em grandes quantidades, para os lancheiros, que carregavam suas lanchas de peixes e, à vela ou a remo, iam vender na região do vale do rio Tijucas. Com a chegada dos primeiros caminhões na comunidade, os lancheiros foram sendo substituídos e o mercado comprador se ampliou para outras regiões.

O excedente da pesca, quando em menor quantidade, era vendido a pequenos negociantes, que o transportava em lombo de cavalo de seirão, ou em carroças. Os compradores eram normalmente aquelas famílias cujos pescadores/lavradores estavam agora voltados para as tarefas agrícolas.

Não havia eletricidade e nem geladeira, de modo que a provisão de pescados era feita através da salga. O peixe era “escalado”, salgado e exposto ao sol e assim guardado em balaios, para consumo nas épocas de lestada, quando o mar não permitia a pesca.

O feijão também fazia parte da alimentação, sob a forma de pirão e em dias festivos também se comia carne de boi ou de porco, ou galinha, pato ou peru.